Especial Oscar: Boyhood – Da Infância à Juventude

Na verdade eu não sei por onde começar a falar de Boyhood, então que tal começarmos pelo começo? A saga de Boyhood tem início em 2002 quando Richard Linklater teve uma ideia brilhante e começa as gravações do que eu diria ser o seu projeto mais ousado, um filme que demoraria 12 anos para ser gravado e distribuído, um filme que não tem uma história como as outras e que apenas tenta retratar a vida como ela é.

Segue a sinopse oficial do filme:

O filme conta a história de um casal de pais divorciados (Ethan Hawke e Patricia Arquette) que tenta criar seu filho Mason (Ellar Coltrane). A narrativa percorre a vida do menino durante um período de doze anos, da infância à juventude, e analisa sua relação com os pais conforme ele vai amadurecendo.

Ousadia, essa é a melhor para definir o que Boyhood é , e representa! Não vem a minha cabeça no momento nenhum outro filme que tenha sido feito e dirigido da mesma forma como Linklater fez em Boyhood. É claro que existem filmes que tem passagens de tempo grandes, ou demoraram certo tempo para serem rodados, mas nos estamos falando de MAIS DE UMA DÉCADA de gravação. Assumir o compromisso de dirigir um filme por 12 anos é algo muito sério, muitos imprevistos podem acontecer nesse longo período de tempo, atores podem morrer (apesar que adicionar uma morte a trama do filme não seria complicado, afinal pessoas morrem ao longo da vida), parte do elenco poderia perder interesse no filme (como aconteceu no caso da filha de Linklater, Lorelei Linklater, que interpretou Samantha, irmã de Mason), e lidar com uma grande equipe de produação e etc. Mas ele conseguiu! Uma semana por ano ele reunia toda a equipe e todo elenco e rodava as cenas. Apenas elogios e admiração vem a minha mente quando penso no nome de Richard Linklater, um visionário que merece um Oscar. Arrisco me a dizer que Boyhood é uma obra prima do cinema mundial.

O filme já me ganhou pelo simples fato de começar com Yellow do Colplay, se é um filme que busca a retratar a vida, por que não começar com Coldplay, simplesmente brilhante! Aliás a trilha sonora do filme é algo que realmente chama à atenção. O longa não teve uma trilha composta para ele, pelo contrário, foram usadas músicas que eram sucessos na época em que as cenas foram rodadas (Que vão desde Paul Maccartney e Lady Gaga até High School Musical) .

Cheio de referências temporais como um filme, um livro, um desenho animado, iPhone 3, iPhone 4, Boyhood criou um pouco de polêmica neste ponto. Muitos críticos acharam que essas referências foram um pouco forçadas de mais. Ok, são um pouco forçadas? Sim são, mas se um dos focos do filme é mostrar a passagem de tempo, por que não mostrar essas referências que estão diariamente em nossas vidas? Mais uma vez meus parabéns ao diretor por essa “sacada” genial!

A continuidade do filme também é outro aspecto interessantíssimo. Nossos olhos nãos estão acostumados a ver nas telonas passagens de tempo tão longas e tão reais. Em um take o ator está de um jeito e na outro “pow” (Ok, imaginem o efeito sonoro que quiserem aqui), ele cresceu, mas ele ainda continua sendo o mesmo ator, eles não simplesmente pegaram e trocaram um ator por outro que seja mais velho e parecido e essa é a genialidade de Boyhood. Vários eventos acontecem entre uma passagem de tempo e outra e você não tem muito explicação do por que e de como aconteceu, eles SIMPLESMENTE aconteceram e você deve aceitar isso. Talvez seja um pouco confuso de início, mas você irá se acostumar.

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Muitos ainda dizem que Patricia Arquette foi responsável por segurar o filme com a sua atuação. Confesso que eu não fiquei muito surpreso com o trabalho dela, e não acho que ela tenha “segurado” o filme, mas é inegável seu talento. A personagem que ela interpreta é de uma profundidade e complexidade enorme ( uma mãe que tem os filhos ainda muito nova, resolve voltar para a faculdade para dar uma vida melhor aos filhos, e que como ela mesma de define “com uma capacidade enorme de fazer escolhas erradas, principalmente quando se trata de amor). Patricia conseguiu desenvolver extremamente bem a sua personagem, e tudo de uma forma natural sem ser clichê.  Ela merece todos os prêmios que já conquistou e merece levar a estatueta para casa.

Quem me surpreendeu foi Ethan Hawke. Seu personagem ,é o pai de Mason e Samantha, e me conquistou de uma tal forma, que é até meio difícil de falar. Quando ele se torna um adulto um pai responsável é como se eu estivesse vendo a figura do “pai ideal”. Os diálogos entre ele e Mason são tão intensos, profundos e tocantes, que me fizeram pensar “Cara eu queria ter uma pai assim”, e tudo isso poderia estar perdido se não fosse a atuação de Hawke.

Quando eu comecei assitir Boyhood logo nos primeiros minutos eu estava pronto para escrever um crítica dizendo : “Boyhood é um filme chato”, e honestamente em alguns momentos do filme eu pensava “Meu Deus o que eu estou fazendo aqui assistindo esse filme?”, mas a ultima meia hora do filme me fez mudar drasticamente de opinião. Eu não sei se foi a fotografia magnifica das cenas finais, se foi escutar Hero da banda Family of the Year (música essa que eu estou escutando repetidas vezes enquanto escrevo esta crítica), mas tudo fez sentido e era como se a minha mente se abrisse. Boyhood é um filme sobre cabelos! Sim cabelos, não simplesmente pelo fato de o cabelos dos personagens mudarem constantemente, mas por ser a metáfora perfeita. Cabelos crescem diariamente de uma forma imperceptível. Cabelos mudam. Na vida nós crescemos um pouco a cada dia, estamos sujeitos a mudanças. Coisas fora do nosso controle acontecem, as vezes sem nenhuma razão aparente, e nos cabe apenas aceitar e seguir em frente. É justamente isso que vemos em Boyhood, acompanhamos e crescimento de todos os personagens, não apenas o físico mas o emocional também, acompanhamos a mudança de cada um deles. O filme consegue captar a essência e tenta transmitir o que a vida realmente é. Ainda nos faz pensar sobre nós mesmos, sobre nosso crescimento, sobre como aproveitamos nosso tempo, o que mudamos e o que deveríamos mudar em nossa vida.

Se eu recomendo que vocês assistam Boyhood – Da Infância à Juventude? É claro que sim. E para terminar gostaria de citar a última frase do filme. “Sabe aquele velho ditado que diz que você deve aproveitar o momento? Bem, acabo de perceber que ele não faz sentido algum, por que na verdade você não aproveita o momento, é o momento que está aproveitando você!”

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